A padaria do Daniel fica na avenida que corta o bairro. O prédio é velho, na esquina de uma rua estreita. Péssimo lugar para estacionar. Para entrar, uma pessoa de cada vez. O espaço é apertado e a disposição dos balcões e gôndolas lembra um mercado-de-pulgas.
As atendentes têm a simpatia da guerrilheira sandinista. A meia-porta que dá para os fundos abre e fecha sem parar. A cada rangida, deixa passar baforadas de pão-saído-do-forno.
O Daniel fica no caixa. Sorriso largo, a barriga também, ele tem uma palavra para cada freguês. Antes de chegar nele, passa-se pela fila do pão, pela dos frios e, depois, pela do caixa. Pela falta de espaço, as filas serpenteiam lado a lado. Nelas, fregueses andam no passo miúdo de velório de gente conhecida.
Mas qual é a razão do sucesso da padaria do Daniel? Por que há filas? Ninguém soube me dizer. "O pão é superior" disse um, acrescentando "mas não sempre". Outro arrisca que não há concorrência por perto. "Todos vamos na padaria menos longe de casa, é a lógica."
Talvez fizéssemos isso uma ou duas vezes, mas ninguém volta para comprar pão de qualidade inconstante, onde o espaço é pequeno, a fila é longa e a paciência da balconista, curta.
A explicação está na pesquisa dos poetas suicidas.
Um estudo publicado esse ano em prestigiosa revista do meio científico descreve um achado singular. Um software de computador analisou as palavras dos poemas de poetas que haviam se suicidado. Depois, o computador debulhou poemas de poetas não-suicidas. Idade, período de vida e estilo foram mantidos semelhantes.
Porém as palavras não eram as mesmas. Poetas suicidas usam pronomes na primeira pessoa (eu , meu) com abundância. Poetas regulares preferem nós, vocês, os outros. As palavras "perecer" e "sucumbir" aparecem nos poemas dos poetas doentes como mofo em parede úmida. A morte ronda suas vidas com a foice em uma mão e palavras mortíferas na outra.
Poetas regulares falam de pessoas, sentimentos, emoções, vitórias, conquistas, encantos, crianças, chá-da-tarde, fim-de-semana, coisas assim. Palavras com cor.
Pessoas regulares, poetas ou não, que vão à padaria, fazem mais do que comprar pão. Ir à padaria do Daniel significa tangenciar os outros, examinar a fila ao lado.
Enquanto uns se cumprimentam com algazarra, outros se constrangem ao serem vistos. Um cliente se surpreende como o vizinho envelheceu, o outro acha esquisitice vir à padaria com o cachorrinho no colo, um terceiro não tira os olhos da vizinha que ele nunca vê e todos se deliciam com o cheiro de pão e vida. Enfim, festa para os sensores cerebrais.
A padaria do Daniel e o texto dos poetas que não têm motivo para morrer estão na mesma vibração. Pessoas não querem saber só de si mesmas. Querem os outros, bisbilhotar a vida, respirar emoção.
Na padaria do Daniel compra-se pão e vida. Ele oferece algo sem preço: as cores da vida nas vidas dos outros.
É por isso que eu vou lá. Acho presunção minha imaginar que o Daniel não sabe disso. Sabe sim. Ele sabe que os fregueses fogem de padarias azulejadas, de balcões longos e sorrisos estreitos. Clientes querem saber se os seus sentidos vivem. E só quem vive faz compras.
Quanta vida há no seu negócio?
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