Há algo rindo em você?
A diferença entre estar sentado à beira do mar no pôr-do-sol de um dia de verão e em sua escrivaninha no trabalho consiste no conteúdo do pensamento. Nada mais que isso.

E pensar é o divisor de águas entre estar bem e não estar.

Temos a curiosa tendência de achar que pensar é simplesmente brincar com idéias dentro da cabeça. Tudo bem, não fosse a presença do julgamento.

Pensar é o dedo que aperta o botão do julgamento. Por exemplo, você está no trabalho, olhando para a tarefa sobre a qual você se debruçou com afinco. Pronto, você já está pensando sobre como ela ficará depois de pronta.

"Como será? O que os caras do marketing dirão?"

A distância entre a pergunta e o surgimento de uma resposta perniciosa que ligeiramente desqualifica seu trabalho abriga um fio de cabelo. Por incrível que pareça, é mais fácil para o cérebro humano articular neurônios críticos do que batedores de palmas.

Chegar à conclusão que "a própria idéia não está boa, o que dizer do projeto" é tentação irresistível. No próximo passo, ela estará na lata do lixo. Isso acontece com espantosa freqüência com todos os nós, todos os dias.

A idéia, o projeto e as folhas de papel amassadas na lata do lixo são ingredientes de uma espécie de ressaca emocional. Prestamos para pouco, de fato não servimos para muito. Ficamos em tom de blues para mais adiante pegarmos o próximo bonde da euforia. Aí tudo recomeça.

Claro que há projetos bem-sucedidos. Mas não é verdade que há épocas da nossa vida em que um projeto ou uma idéia são precedidos de nove outras que não vêm à luz?

Ao desprezarmos qualquer coisa da produção mental, algo dentro de nós ri. Ri da desistência precoce, da facilidade com que o novo é desmanchado, da nossa extraordinária fragilidade à crítica. Tudo só por que a idéia é nova. Mais: é nova e é nossa.

Somos capazes de mobilizar uma considerável massa de inércia para gerar um pensamento inédito e no entanto permanecemos vulneráveis à sua permanência dentro das sinapses cerebrais.

Quem ri do pensamento responde pelo nome de Galhofeiro. É a razão da nossa tendência ao fracasso. O Galhofeiro está à espreita sempre que não estamos contemplativos. Assim que passamos a pensar, O Galhofeiro mete seu nariz crítico no assunto.

O Galhofeiro também responde pelo apelido de julgamento. Sempre que julgamos, ou pré-julgamos, é O Galhofeiro quem age.

O Galhofeiro é o removedor do melhor presente que você poderia receber. O dom de ver-se com os outros lhe vêem, por que aí você veria quão especial você é. Mas para que serve descobrir-se aos olhos dos outros, diz o cérebro à galhofa?

Quando deixamos a tendência de julgar sobrecriticamente tudo que pensamos, dizemos ou fazemos, colocamos O Galhofeiro no porta-guarda-chuva na entrada da sala. E ele fica lá enquanto o sol brilha no coração.

É do coração que vem nossas melhores idéias, não do cérebro. Desligue O Galhofeiro por umas horas e você vai ver do que é capaz.

A idéia de desligar O Galhofeiro enquanto você lê o Háquer pode lhe parecer um desafio. Há algo rindo em você?
 
Martin Portner
médico neurologista + science webwriter