Ele vai tomar conta
Quando Don Nix, compositor e produtor musical, encarregou Albert King de cantar e tocar guitarra em "Todos Querem Ir Para o Céu", ele sabia o que fazia.

Depois da introdução — uma rápida passada por acordes que geram dissonância dentro d´alma, um solo de guitarra áspero porém instigante e uma percussão levemente dançante — o lamento grave da voz de King prescreve o que segue:

"Everybody wants to go to Heaven
But nobody wants do die

Everybody wants to hear the truth
But yet everybody wants to tell a lie

Everybody wanna know the reason
Oh, without even asking why"

Puras pérolas preciosas. Daria para chamá-las de Três Leis Genéricas do Funcionamento d´Alma. Se você as usasse um tanto, acertaria muitas coisas; usando-as sempre, acertaria nas coisas essenciais da vida.

Um: seu cérebro não sabe que morrerá um dia; sua alma sabe.

Dois: a alma anseia pela verdade, mas as sinapses cerebrais da área de Broca (lembra, aquela que você deve surpreender, e qual surpresa é melhor que a verdade nua e crua?) entregam mentiras. Para os outros também, mas principalmente para você.

Três: todos querem informação, mas na maioria das vezes ninguém quer gastar tempo com como perguntar.

O organismo humano possui um oráculo de Delfos. Ele se chama de Vago, ou nervo vago do coração.

Eu passei anos achando que o nervo vago servia para adestrar o ritmo das batidas do coração. Também é isso, mas no bastidor ele serve à alma, é seu mensageiro. De irrestrita confiança. Traz e leva recados com teimosa sabedoria.

Sim, podemos ouvir uma resposta simples para uma pergunta complexa desde que a perguntemos ao coração. Estou sabendo que você imagina que se trata de metáfora, coisa de poeta que diz "quem é que tudo sabe/ quando nada sabemos/ é o coração/ mas precisa fazer força/precisa tê-lo à mão", mas não estou, não.

Vago é nervo, não é metáfora. Mensagem é informação; e seu mensageiro, solucionador de problemas.

Feche os olhos um instante, depois de ler o parágrafo. Respire menos vezes por minuto do que respiraria vendo um programa light na TV. Focalize sua atenção no peito, em qualquer lugar desde que ali você imagina que seu coração bate. Solte os músculos ao redor da boca e dos olhos, como se você fosse um pipoqueiro no parque de diversões cuja fila não pára de aumentar, e que, graças a Deus, vai fazer o seu dia e o de sua família. E aí, com leveza musical, escorregue seu problema para dentro do peito.

A resposta não costuma demorar 5 segundos. Sim, ela vem em código, mas você vai entendê-lo com clareza claríssima. Luz clara na frente do olho é sinal verde, como no semáforo. Penumbra, vermelho. Amarelo, você decide.

Passe a perguntar e você terá respostas.

Nada de mentiras quando conversar com você mesmo. Muito menos com o vago.

Vamos morrer, é certo. Mas entre cá e lá acontecem muitas coisas. E, quando chegar a hora, você vai ter falado tantas vezes com seu coração que, não se preocupe, ele mesmo vai tomar conta de como vai ser.

Dupla safo essa do Don Mix com o Albert King.
 
Martin Portner
médico neurologista + science webwriter